Quase 64 milhões de brasileiros não concluíram a educação básica

Baixa adesão à educação de jovens e adultos expõe gargalo estrutural e impacto direto na economia

O Brasil convive com um dos maiores desafios estruturais da sua formação social: o acesso incompleto à educação. Um novo levantamento aponta que quase 64 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não concluíram a educação básica, evidenciando um problema que atravessa gerações e limita o desenvolvimento do país.

Do total, mais de 44 milhões não terminaram o ensino fundamental, enquanto outros 19 milhões não concluíram o ensino médio.

Os dados foram reunidos por um grupo de 16 organizações da sociedade civil, incluindo Unesco, Unicef e Fundação Roberto Marinho, que lançaram uma rede voltada à reformulação do Plano Nacional de Educação para a próxima década.

Apesar do número expressivo de pessoas fora da escola, o acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA) segue restrito. Segundo o levantamento, menos de 2% desse público está matriculado nessa modalidade, que deveria funcionar como principal porta de retorno aos estudos.

Na prática, isso significa que milhões de brasileiros permanecem fora do sistema educacional sem uma política efetiva de reintegração.

Histórias como a de Francisca Laura Silva ajudam a dimensionar o impacto desse cenário. Após três décadas afastada da escola, ela decidiu retomar os estudos, impulsionada pela família. O objetivo é direto: “Ser médica para ajudar os doentes”.

O déficit educacional não afeta apenas trajetórias individuais. Ele também tem consequências diretas na economia. Segundo o estudo, se essa parcela da população tivesse concluído a formação básica, o Brasil poderia gerar R$ 66 bilhões adicionais por ano em renda, o equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB).

A relação é clara: maior escolaridade tende a ampliar oportunidades de emprego, renda e consumo, elementos centrais para o crescimento econômico.

A iniciativa das organizações tem como objetivo pressionar por mudanças no próximo Plano Nacional de Educação, responsável por definir metas e diretrizes até 2036.

A proposta é colocar a educação de jovens e adultos como prioridade estratégica, e não como política secundária.

“Nós precisamos formar para o trabalho, para que a pessoa tenha emprego, possa ser absorvida. Que o país possa se desenvolver, prosperar”, afirmou Rebeca Otero, coordenadora de educação da Unesco no Brasil.

João Alegria, da Fundação Roberto Marinho, reforçou o peso estrutural do tema: “Essa é uma agenda que tem uma centralidade para um projeto de país, para o futuro do Brasil”.

O cenário exposto pela pesquisa revela que o problema vai além do acesso à escola. Envolve questões como desigualdade social, trabalho precoce, responsabilidades familiares e falta de políticas contínuas.

Sem enfrentar esses fatores de forma integrada, o país tende a manter um ciclo em que milhões de brasileiros permanecem à margem do sistema educacional e, por consequência, das oportunidades que ele oferece.

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