O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na quinta-feira (23).
O total representa um aumento de 4% em relação a 2024 e marca o quarto recorde consecutivo desse tipo de crime no país.
A taxa foi de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres, consolidando uma tendência de crescimento da violência letal motivada por questões de gênero.
Os dados contrastam com o cenário geral da segurança pública. Enquanto os feminicídios aumentaram, o Brasil registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais (MVIs) em 2025, uma queda de 8,2% em relação ao ano anterior e a menor taxa da série histórica, com 19,1 mortes por 100 mil habitantes.
Para a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, os números mostram que a violência contra as mulheres segue uma dinâmica distinta da criminalidade em geral.
“Enquanto os homicídios vêm caindo, as mulheres continuam morrendo por serem mulheres.”
Segundo a pesquisadora, fatores como desigualdade de gênero, padrões culturais de masculinidade, controle coercitivo e fragilidades na rede de proteção dificultam a interrupção de ciclos de violência doméstica.
Em 2025, 44,4% de todas as mulheres assassinadas no Brasil morreram por razões de gênero, o maior percentual desde que o feminicídio passou a integrar o Código Penal, em 2015.
Tentativas de feminicídio também cresceram
O Anuário aponta ainda um aumento nas tentativas de feminicídio.
Ao longo de 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de assassinato, um crescimento de 5,9% em relação ao ano anterior.
Isso significa que, para cada feminicídio consumado, houve 2,7 tentativas, indicando que milhares de mulheres permaneceram em situação de risco.
Segundo Juliana Brandão, a tentativa ocorre porque o agressor não conseguiu consumar o crime, e não porque desistiu da ação.
“Na definição do Código Penal, a tentativa ocorre porque circunstâncias alheias à vontade do autor impediram a consumação do crime. Ou seja, ele não desistiu de matar; ele não conseguiu.”
Os dados mostram que o feminicídio atinge principalmente mulheres negras, em idade economicamente ativa.
Entre as vítimas registradas em 2025:
- 65,1% eram negras;
- 56,5% tinham entre 25 e 44 anos;
- 62,5% foram assassinadas dentro da própria residência.
Quando a autoria foi identificada:
- 96,4% dos crimes foram cometidos por homens;
- 60,9% dos autores eram parceiros íntimos;
- 18,9% eram ex-parceiros;
- 12,1% eram familiares.
Os números reforçam que o feminicídio, na maioria dos casos, ocorre dentro do círculo de convivência da vítima.
Outro dado destacado pelo Anuário é o crescimento do descumprimento de medidas protetivas de urgência.
Em 2025, foram registrados 132.025 casos, alta de 16,7% em comparação com o ano anterior.
Entre os estados que forneceram informações ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 70 mulheres foram assassinadas mesmo possuindo medida protetiva ativa, o equivalente a uma em cada nove vítimas.
Segundo Juliana Brandão, esse cenário evidencia limitações na capacidade do Estado de impedir que episódios de violência evoluam para o assassinato.
As maiores taxas de feminicídio em 2025 foram registradas em:
- Amapá;
- Mato Grosso;
- Mato Grosso do Sul.
O levantamento aponta uma maior concentração dos casos nas regiões Norte e Centro-Oeste.
O que diz o Ministério da Justiça
Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) afirmou que os dados do Anuário são importantes para acompanhar a evolução da violência contra a mulher, mas destacou que o Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher aponta uma queda de 2,5% nos feminicídios no primeiro semestre de 2026, com 741 casos, contra 760 registrados no mesmo período de 2025.
O ministério atribui esse resultado à ampliação de políticas públicas de prevenção, proteção às vítimas, integração entre forças de segurança e responsabilização dos agressores, além de iniciativas como o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, a Operação Integrada Mulher Segura, o Centro Integrado Mulher Segura (CIMS) e a expansão das Salas Lilás.



