Um novo medicamento experimental apresentado no maior congresso de oncologia do mundo, o ASCO 2026, trouxe um resultado raro para um dos tipos mais agressivos de tumor: o câncer de pâncreas avançado. Em testes clínicos, a droga daraxonrasib quase dobrou o tempo médio de sobrevida de pacientes em estágio metastático.
O estudo, publicado simultaneamente na revista científica New England Journal of Medicine, comparou o novo tratamento com a quimioterapia convencional, atual padrão para esses casos.
No ensaio clínico de fase 3 (última etapa antes da aprovação regulatória) participaram cerca de 500 pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático, o tipo mais comum da doença.
Os dados chamaram atenção:
- Pacientes tratados com o novo medicamento viveram, em média, 13,2 meses
- No grupo que recebeu quimioterapia, a média foi de 6,7 meses
A diferença representa praticamente o dobro de sobrevida, um resultado considerado significativo para um câncer historicamente associado a baixa resposta terapêutica.
Outro ponto destacado é a forma de administração: ao contrário da quimioterapia intravenosa, o daraxonrasib é um medicamento oral, tomado uma vez por dia, o que reduz a necessidade de visitas frequentes ao hospital.
Por que o câncer de pâncreas é tão difícil de tratar
O impacto dos resultados se torna mais claro quando se observa o comportamento da doença. O pâncreas é um órgão de difícil acesso e os tumores costumam crescer de forma silenciosa, sem sintomas evidentes nas fases iniciais.
Como não há rastreamento eficaz para a população geral, muitos casos são diagnosticados já em estágio avançado, quando as opções de tratamento são limitadas.
Além disso, mais de 90% dos tumores apresentam mutações no gene KRAS, responsável por regular o crescimento celular. Quando alterado, esse mecanismo passa a estimular a multiplicação contínua das células tumorais.
Por décadas, esse gene foi considerado um alvo praticamente inalcançável para terapias.
O daraxonrasib surge justamente ao tentar superar esse desafio. A droga atua como um inibidor multisseletivo de RAS, bloqueando a sinalização tumoral mesmo quando a proteína já está ativa, um ponto que limita a eficácia de tratamentos anteriores.
Essa abordagem amplia o alcance do tratamento, inclusive em pacientes que já não respondiam à quimioterapia.
Além da eficácia, o estudo também apontou uma melhor tolerância ao tratamento.
Eventos adversos graves foram registrados em:
- 43,6% dos pacientes que usaram o novo medicamento
- 57,5% dos pacientes em quimioterapia
A taxa de interrupção do tratamento por efeitos colaterais também foi menor: 1,2%, contra 11,2% na terapia convencional.
Agora, os dados foram submetidos à avaliação da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos. Paralelamente, novos estudos já estão em andamento para testar o uso do medicamento em fases iniciais da doença e em combinação com outras terapias.
Especialistas apontam que o daraxonrasib não representa uma cura, mas sim a abertura de uma nova linha de tratamento para uma doença com poucos avanços ao longo das últimas décadas.
No Brasil, ainda não há previsão de disponibilidade. A recomendação de especialistas é que pacientes não busquem acesso fora de protocolos clínicos até que haja aprovação regulatória.
Mesmo assim, os resultados apresentados indicam um movimento relevante na oncologia: o de finalmente avançar sobre um dos tumores mais desafiadores da medicina.


