O uso de reconhecimento facial em estádios já começa a produzir efeitos além da segurança esportiva. Em São Paulo, uma parceria entre o Palmeiras e a Secretaria de Segurança Pública resultou em 49 prisões desde 2023, sendo 35 delas de pessoas com mandados em aberto por não pagamento de pensão alimentícia.
Os dados são de jogos em que o clube atuou como mandante, tanto no Allianz Parque quanto na Arena Barueri. Na prática, o sistema identifica torcedores procurados pela Justiça ainda no acesso ao estádio, impedindo a entrada e acionando as autoridades.
A iniciativa antecipa, em certa medida, um movimento que começa a ganhar força no Congresso Nacional: a possibilidade de restringir o acesso de devedores de pensão a eventos esportivos.
Desde 2023, o Palmeiras adotou a biometria facial em 100% dos ingressos, integrando o controle de acesso ao programa Muralha Paulista, da SSP-SP.
O mecanismo funciona como uma triagem automática:
- O torcedor tem o rosto identificado nas catracas
- O sistema cruza os dados com bancos de pessoas procuradas
- Em caso de mandado em aberto, a entrada é bloqueada
- A pessoa é encaminhada às autoridades policiais
Além dos casos ligados à pensão alimentícia, a parceria também levou à prisão de indivíduos por crimes como tráfico de drogas e pedofilia.
Segundo a presidente do clube, Leila Pereira, a medida vai além do futebol.
“Os números mostram que a parceria […] contribui não apenas com a proteção dos torcedores, mas também com o cumprimento de decisões judiciais”, afirmou.
Projeto de lei quer ampliar restrição
O tema ganhou força em Brasília nas últimas semanas. O Projeto de Lei 2581/2026, apresentado pela deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), propõe permitir que a Justiça proíba devedores de pensão de frequentar estádios e eventos esportivos.
A proposta surge em meio a um conjunto de iniciativas semelhantes. Ao todo, quatro projetos foram protocolados na Câmara em maio, todos com foco em criar novas formas de pressionar o pagamento da pensão.
Na justificativa, a deputada argumenta que os mecanismos atuais não têm sido suficientes para garantir o cumprimento da obrigação. A ideia é que a restrição funcione como uma medida coercitiva adicional, sem substituir a possibilidade de prisão civil já prevista em lei.
Outros textos em análise ampliam o escopo, incluindo restrições também para condenados por crimes como violência contra a mulher ou maus-tratos a animais.
A discussão não é exclusiva do país. A Argentina anunciou recentemente a proibição de entrada de devedores de pensão em estádios, utilizando um cadastro nacional para controle.
No Brasil, embora os projetos ainda não tenham começado a tramitar formalmente (aguardando despacho da presidência da Câmara), experiências como a do Palmeiras mostram que a tecnologia já permite aplicar medidas semelhantes na prática.
O avanço do reconhecimento facial no futebol, portanto, passa a ocupar um novo espaço: o de ferramenta de execução judicial, ampliando o alcance das decisões para além dos tribunais e chegando diretamente às catracas dos estádios.


