França x Marrocos expõe diáspora, colonialismo e racismo

Duelo pelas quartas da Copa de 2026 reúne seleções marcadas por migração, identidade nacional e um passado colonial comum

O confronto entre França x Marrocos, nesta quinta-feira (9), às 17h (de Brasília), no Gillette Stadium, em Boston, nos Estados Unidos, abre as quartas de final da Copa do Mundo de 2026 e coloca frente a frente duas seleções ligadas por um passado colonial, fluxos migratórios e debates sobre identidade e racismo, em uma edição na qual quase 300 atletas defendem países diferentes daqueles onde nasceram.

A partida é apontada como um dos principais símbolos da chamada “Copa das diásporas”.

Enquanto o Marrocos reúne 19 jogadores nascidos fora do país, a França tem 23 dos 26 convocados nascidos em território francês, embora atletas negros ainda tenham sua nacionalidade questionada em ataques racistas.

O contexto também passa pela história entre os dois países. O Marrocos tornou-se protetorado francês em 1912 e conquistou a independência em 1956.

Desde então, as nações mantêm relações econômicas, culturais, migratórias e diplomáticas, além de tensões relacionadas à imigração e à memória colonial.

França x Marrocos carrega simbolismo além do futebol

“O confronto é simbólico porque coloca frente a frente a antiga potência colonial e um país que hoje usa o futebol como instrumento de identidade nacional, prestígio internacional e soft power.

Não é apenas um jogo eliminatório. É um confronto carregado de memória colonial, migração, identidade e globalização, afirma Alexandre Coelho, professor da Faap e doutor em Relações Internacionais pela USP, em entrevista ao portal ‘Uol’.

Segundo o especialista, as seleções contemporâneas não representam apenas territórios nacionais, mas também ancestralidades, comunidades espalhadas por diferentes países e vínculos transnacionais.

“Desde então, os dois países têm uma relação próxima, mas ambígua: há vínculos econômicos, culturais, migratórios e diplomáticos importantes, mas também tensões ligadas à imigração, ao racismo, aos vistos e à memória colonial, prossegue.

Racismo mantém debate sobre identidade francesa

A presença de jogadores ligados à imigração não é nova na seleção francesa. Just Fontaine, recordista de gols em uma única edição de Copa do Mundo, nasceu no Marrocos e defendeu a França em 1958. Em 1982, seis integrantes do elenco francês haviam nascido no exterior.

Na edição de 2026, porém, a ampla maioria dos convocados nasceu na França. Ainda assim, jogadores negros foram alvo de ataques nas redes sociais e tiveram a identidade francesa questionada.

“O racismo opera ao tirar a nacionalidade deles de franceses. Mbappé e tantos outros jogadores que nasceram na França são franceses.

Eles (em alguns casos) têm pais que não são franceses, mas a questão é tirar desses jogadores negros a nacionalidade deles.

É o racismo na forma mais cruel contra esses jogadores negros”, afirma Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Carvalho também aponta diferenças no tratamento dado a jogadores brancos com trajetórias familiares ligadas à imigração.

“Ninguém contesta o Haaland, que nasceu na Inglaterra, mas é uma pessoa branca.

Sempre se vai contestar pessoas pretas para dizer que não representam os países ditos como brancos”, pondera.

 

Marrocos aposta na força da diáspora

A seleção marroquina representa um movimento que ganhou força nos últimos Mundiais: países fora da Europa passaram a buscar jogadores nascidos no exterior, mas ligados às suas comunidades por origem familiar e ancestralidade.

O Marrocos desenvolveu um projeto de observação de talentos nascidos principalmente na Europa.

Em 2026, 19 jogadores do elenco nasceram fora do território marroquino, entre eles Achraf Hakimi e Brahim Díaz, nascidos na Espanha, e o goleiro Yassine Bounou, o Bono, nascido no Canadá.

Para Alexandre Coelho, ao incorporar esses atletas como parte legítima de sua comunidade nacional, o país “mostra como a globalização transformou a diáspora em recurso esportivo, identitário e diplomático.

Marcelo Carvalho avalia que a escolha por defender o país de origem da família pode envolver orgulho e identificação, mas também experiências de racismo e xenofobia.

“É também parte desse processo da luta. Porque você vai viver em um lugar que tentam negar de ti esse pertencimento.

O jogador vai pensar: ‘Já que a violência está tão presente, não quero fazer parte disso'”, argumenta, em entrevista ao ‘Uol’.

 

Duelo vale vaga na semifinal da Copa

Dentro de campo, a França chegou às quartas após vencer o Paraguai por 1 a 0, com gol de Kylian Mbappé em cobrança de pênalti.

O Marrocos avançou depois de derrotar o Canadá por 3 a 0.

As equipes se enfrentaram uma vez em Copas do Mundo. Na semifinal de 2022, no Qatar, os franceses venceram por 2 a 0, com gols de Theo Hernández e Kolo Muani.

A partida desta quinta-feira (9) terá arbitragem de Facundo Tello, da Argentina, auxiliado por Juan Pablo Belatti e Gabriel Chade. Hernán Mastrángelo será o responsável pelo VAR.

O jogo entre França e Marrocos acontece nesta quinta-feira (9), às 17h (de Brasília), no Gillette Stadium, em Boston, nos Estados Unidos.

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