Pela primeira vez nos últimos anos, o Brasil registrou uma queda na posse de celulares entre crianças de 10 a 13 anos. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad TIC 2025), divulgada pelo IBGE, e mostram uma mudança de comportamento que vai na contramão da tendência observada no restante da população.
Entre 2024 e 2025, o percentual de crianças nessa faixa etária que possuíam telefone celular para uso pessoal caiu de 56,7% para 55,2%. Embora a redução seja discreta, o movimento chama atenção por acontecer justamente em um período de crescimento da conectividade no país.
Enquanto isso, o número total de brasileiros com celular continuou aumentando. Em 2025, cerca de 167,4 milhões de pessoas com 10 anos ou mais possuíam aparelho próprio, o equivalente a 89,8% da população.
Segurança digital entra no centro da discussão
Segundo analistas do IBGE, o resultado pode estar ligado ao aumento da preocupação de pais e responsáveis com os impactos da tecnologia sobre crianças e adolescentes.
Nos últimos anos, temas como segurança digital, uso excessivo de telas, exposição em redes sociais e proteção de dados passaram a ocupar espaço cada vez maior no debate público.
Além disso, medidas recentes também podem ter influenciado o cenário, como as restrições ao uso de celulares nas escolas e a entrada em vigor do chamado ECA Digital, conjunto de normas voltadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente online.
A preocupação aparece de forma clara nos dados da pesquisa.
Entre as crianças de 10 a 13 anos que não possuem celular, 32% apontaram questões relacionadas à privacidade ou segurança como principal motivo para não terem um aparelho próprio.
Menos celular, menos internet
O mesmo grupo etário também foi o único a registrar queda no acesso à internet. A proporção de usuários da rede entre crianças de 10 a 13 anos caiu de 84,9% em 2024 para 84,4% em 2025.
Embora o acesso continue elevado, especialistas interpretam o resultado como um possível reflexo de uma maior conscientização das famílias sobre os riscos da exposição precoce ao ambiente digital.
Entre os motivos citados por crianças que não utilizam a internet, destacam-se:
- Falta de necessidade (33,8%)
- Preocupação com privacidade ou segurança (30,3%)
Para especialistas em tecnologia e sociedade, a redução é positiva, mas ainda insuficiente para indicar uma mudança estrutural.
O coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, Luca Belli, avalia que existe uma crescente conscientização sobre os riscos associados ao uso precoce de dispositivos digitais, mas considera que o debate ainda está em fase inicial no Brasil.
Entre os riscos frequentemente apontados estão:
- Problemas relacionados à saúde mental;
- Excesso de tempo de tela;
- Exposição a golpes e fraudes;
- Contato com criminosos e predadores online;
- Interações inadequadas em plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial.
Diversos países já avançam em regras mais rígidas. A Austrália, por exemplo, aprovou legislação restringindo o acesso de menores de 16 anos a grandes redes sociais. Medidas semelhantes também vêm sendo discutidas em países como Reino Unido e Indonésia.
Idosos seguem caminho oposto
Se as crianças foram o único grupo a registrar queda, os idosos apresentaram o maior crescimento.
Entre pessoas com 60 anos ou mais, a posse de celulares passou de 78,3% para 80,3% em apenas um ano.
O dado reforça a tendência de inclusão digital da população mais velha, impulsionada pelo uso de aplicativos de mensagens, serviços bancários digitais e ferramentas de comunicação com familiares.
Outro dado que chamou atenção no levantamento foi o aumento da preocupação com privacidade e segurança entre pessoas sem celular.
Em 2022, apenas 4,8% apontavam esse motivo para não possuir aparelho. O índice passou para 7,7% em 2024 e chegou a 11,8% em 2025, mais que dobrando em três anos.
Para o IBGE, o avanço desse indicador mostra que o debate sobre os impactos da vida digital está se tornando cada vez mais presente entre as famílias brasileiras.



