O Irã afirmou que pretende atacar bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio caso seja alvo de bombardeios, segundo um oficial iraniano de alto escalão ouvido pela agência Reuters.
De acordo com o relato, países vizinhos teriam sido informados antecipadamente sobre o plano de retaliação, em meio ao aumento das tensões com o governo do presidente Donald Trump, que voltou a falar em possível intervenção militar em solo iraniano.
“Teerã informou países da região, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos até a Turquia, que bases dos EUA nesses países serão atacadas” caso os norte-americanos alvejem o Irã, disse a autoridade à Reuters sob condição de anonimato.
Ainda segundo o oficial, o governo iraniano teria solicitado a aliados dos EUA no Oriente Médio “que impeçam Washington de atacar o Irã”.
O Irã já vinha afirmando que reagiria a uma ofensiva norte-americana, mas os detalhes citados agora ampliam a preocupação com uma possível escalada regional.
Base de Al Udeid, no Catar, adota medidas diante de risco de retaliação
A ameaça de resposta iraniana também teve reflexos na movimentação militar na região. Três diplomatas disseram à Reuters que integrantes da Base Aérea de Al Udeid, no Catar, foram orientados a deixar o local até a noite desta quarta-feira (14).
A instalação é considerada a maior base dos EUA no Oriente Médio, com cerca de 10 mil militares, e integra a estrutura norte-americana que inclui aproximadamente 40 mil soldados em diferentes pontos da região.
Al Udeid já havia sido alvo de ataque em junho de 2025, no desfecho da chamada guerra de 12 dias entre Israel e Irã, após o bombardeio dos Estados Unidos a três instalações nucleares iranianas.
Protestos no Irã e repressão agravam crise interna
O pano de fundo da crise envolve a onda de manifestações contra o regime do aiatolá Ali Khamenei em várias cidades iranianas.
Segundo organizações não governamentais que monitoram o cenário, o total de mortos já superou 2.500 pessoas. Um oficial iraniano também declarou ao jornal norte-americano “The New York Times” que ao menos três mil teriam morrido, enquanto a estimativa real ainda pode ser maior.
A apuração, no entanto, tem sido dificultada por um bloqueio de internet imposto no Irã, que restringe o fluxo de informações e o acesso a registros de vítimas e detidos.
Relatos reunidos por ONGs, agências internacionais e veículos de imprensa descrevem o uso de violência pelas forças de segurança, além de denúncias de execuções extrajudiciais e ações classificadas por testemunhas como um possível massacre em andamento.
Trump fala com manifestantes e volta a sugerir intervenção
Nos Estados Unidos, Donald Trump se dirigiu diretamente aos manifestantes iranianos na terça-feira (13), durante um discurso em Detroit.
Ele pediu que as pessoas mantivessem registros de agentes envolvidos na repressão e afirmou que o governo iraniano pagaria um custo elevado.
“E, aliás, a todos os patriotas iranianos, continuem protestando, tomem as instituições se vocês puderem, e guardem os nomes dos assassinos e dos que estão maltratando vocês”, disse Trump, durante um discurso em Detroit.
“Eles vão pagar um preço muito alto”, concluiu o presidente, que disse que “uma morte [de manifestante] já é demais”.

No mesmo dia, o presidente também reforçou outra mensagem de incentivo aos protestos, dizendo:
“Patriotas iranianos, continuem protestando. Derrubem suas instituições. (…) A ajuda está a caminho”, declarou.
Questionado sobre o significado de “ajuda”, Trump respondeu: “Você vai ter que adivinhar depois, me desculpe”.
A escalada verbal ocorre enquanto Trump avalia possíveis medidas contra o Irã. Segundo o próprio presidente, sua equipe deveria apresentar um relatório com opções de ações militares, e ele evitou confirmar qual caminho seguirá: “Vocês terão que descobrir”.
Além do tema militar, Trump também mencionou pressão econômica. Na segunda-feira (12), ele declarou que países que mantiverem negócios com o Irã poderão enfrentar uma tarifa de 25% no comércio com os EUA.
Execução de manifestante entra no centro da crise
Em meio à repressão, uma ONG apontou que um manifestante deve ser executado pelo regime iraniano nesta quarta-feira (14).
Trata-se de Erfan Soltani, de 26 anos, preso na cidade de Karaj, conforme informações divulgadas pela organização curdo-iraniana Hengaw.
A entidade afirma que o jovem não teve acesso a advogado e levantou preocupações sobre o uso acelerado da pena capital.
“O tratamento apressado e pouco transparente deste caso aumentou as preocupações sobre o uso da pena de morte como instrumento para reprimir protestos públicos”, disse o grupo.
“Sua família está sendo privada de qualquer informação sobre as acusações, o processo ou os procedimentos judiciais”, destacou a ONG.
A Hengaw relata ainda que a sentença seria definitiva e que a irmã de Soltani, que é advogada, teria tentado acompanhar o processo, mas não conseguiu acesso aos autos.
Quem é Erfan Soltani?
Segundo a Hengaw, Soltani mora no bairro de Fardis, em Karaj, e teria sido preso em casa na quinta-feira (8), relacionado aos protestos.
O portal Iranwire publicou que ele trabalhava na indústria do vestuário e havia ingressado recentemente em uma empresa privada.
“Aqueles que o conhecem o descrevem como apaixonado por moda e estilo pessoal. Seu perfil no Instagram — um dos poucos que as autoridades não apagaram — mostra um jovem que gostava de musculação, esportes e de levar uma vida simples”, diz a reportagem.
Uma fonte citada pelo portal afirmou que ele teria recebido “mensagens ameaçadoras de fontes de segurança”, mas seguiu “comprometido com os protestos”.
Veja uma foto de Erfan Soltani, manifestante de 26 anos que deve ser executado pelo regime iraniano:

Trump reage a relatos de enforcamento e cita “medidas muito duras”
Trump comentou o caso em entrevista à CBS News e afirmou que os Estados Unidos podem reagir caso o Irã avance com execuções relacionadas aos protestos.
“Não queremos ver o que está acontecendo no Irã acontecer aqui. E você sabe, se eles quiserem protestar, isso é uma coisa. Quando começam a matar milhares de pessoas, e agora você está me dizendo sobre enforcamentos, vamos ver como isso vai terminar para eles”, disse Trump à CBS News.
Em outro momento, o presidente dos EUA reforçou: “Vamos tomar medidas muito duras, se fizerem esse tipo de coisa”, afirmou.
Ao ser questionado sobre quais medidas poderiam ser adotadas, Trump disse que o objetivo seria “vencer” e citou episódios como operações que resultaram na morte de líderes do Estado Islâmico e do general iraniano Qasem Soleimani. Ele também mencionou:
“A ameaça nuclear iraniana foi eliminada em cerca de 15 minutos, assim que os B-2 chegaram lá. Aquilo foi uma obliteração completa”, disse.
Alemanha diz ver regime “nos últimos dias e semanas” e cita queda no comércio
A situação também foi comentada por autoridades europeias. Em visita à Índia, o chanceler alemão Friedrich Merz disse acreditar que o regime iraniano enfrenta um momento decisivo:
“Presumo que agora estejamos testemunhando os últimos dias e semanas desse regime”.
Merz afirmou que a repressão aos protestos pode indicar perda de apoio interno e declarou que a Alemanha mantém contato com os Estados Unidos e outros governos europeus sobre o cenário no Irã.
Ele também citou o recuo no comércio bilateral: exportações alemãs para o Irã teriam caído 25% nos primeiros 11 meses, representando menos de 0,1% do total exportado pelo país, segundo dados do escritório federal de estatísticas citados pela Reuters.
Contexto: como os protestos se ampliaram
De acordo com relatos reunidos por agências internacionais, as manifestações que inicialmente expressavam queixas sobre a crise econômica passaram a incluir pedidos diretos pela queda da República Islâmica, vigente desde 1979.
Enquanto o governo iraniano acusa os EUA de buscarem um pretexto para incentivar uma mudança de regime, Trump segue indicando que novas ações, sejam elas militares ou econômicas, permanecem em avaliação, aumentando a atenção internacional para os desdobramentos no Oriente Médio.


