Um novo acordo de cooperação nuclear firmado entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita reacendeu o debate sobre o enriquecimento de urânio, um processo essencial para a produção de energia nuclear, mas que também pode abrir caminho para a fabricação de armas nucleares.
Segundo o governo americano, o entendimento permitirá uma parceria de longo prazo para o desenvolvimento de um programa nuclear civil saudita, ampliando a participação de empresas dos Estados Unidos no setor.
Embora o texto completo do acordo não tenha sido divulgado, veículos da imprensa americana informaram que ele poderá autorizar a Arábia Saudita a enriquecer urânio em seu próprio território, algo considerado incomum em acordos desse tipo.
A possibilidade preocupa especialistas porque a mesma tecnologia utilizada para produzir combustível para reatores também pode, em níveis mais elevados, ser empregada na fabricação de bombas atômicas.
O que é o urânio enriquecido?
O urânio é um elemento químico encontrado naturalmente na crosta terrestre e composto principalmente por dois isótopos: U-238 e U-235.
Mais de 99% do urânio natural é formado pelo U-238, enquanto apenas cerca de 0,7% corresponde ao U-235, isótopo capaz de sustentar uma reação de fissão nuclear, processo responsável pela liberação de energia.
Para tornar o material útil, é necessário aumentar a concentração de U-235 por meio do chamado enriquecimento de urânio.
Nesse processo, o urânio é transformado em gás e passa por centrífugas que giram em altíssima velocidade. Como o U-235 é mais leve que o U-238, ele pode ser separado gradualmente, aumentando sua concentração.
O nível de enriquecimento determina a finalidade do material.
Nas usinas nucleares, utiliza-se o chamado urânio pouco enriquecido, com concentração entre 3% e 5% de U-235. Esse percentual é suficiente para manter uma reação nuclear controlada e produzir eletricidade.
Já o urânio altamente enriquecido, com concentração superior a 20%, pode ser empregado em reatores de pesquisa.
Para a fabricação de armas nucleares, normalmente é utilizado um material enriquecido em torno de 90% de U-235, concentração que permite uma reação extremamente rápida e explosiva.
É justamente essa possibilidade de utilização dupla que torna o enriquecimento de urânio um tema tão sensível nas negociações internacionais.
Por que o acordo gera preocupação?
Os Estados Unidos mantêm acordos de cooperação nuclear com cerca de 50 países, mas, segundo a BBC, até então apenas Índia e Japão possuíam autorização para enriquecer urânio localmente dentro desses entendimentos.
Caso a permissão à Arábia Saudita seja confirmada, o reino se tornará uma exceção.
Especialistas em segurança internacional alertam que permitir o domínio dessa tecnologia amplia, ao menos em teoria, a capacidade de um país desenvolver armas nucleares no futuro, ainda que o objetivo inicial seja exclusivamente civil.
A preocupação ganha ainda mais peso diante das tensões no Oriente Médio, especialmente após os recentes confrontos envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.
No anúncio oficial, o Departamento de Energia dos Estados Unidos afirmou que o acordo também inclui um tratado de salvaguardas, destinado justamente a reforçar os mecanismos de não proliferação nuclear.
O governo saudita declarou que a parceria representa uma ampliação da cooperação energética entre os dois países.
Apesar disso, uma declaração anterior do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, dada em 2018, continua sendo frequentemente lembrada. Na ocasião, ele afirmou que a Arábia Saudita não pretendia desenvolver armas nucleares, mas acrescentou que, caso o Irã construísse uma bomba atômica, o reino faria o mesmo “o mais rápido possível”.
Atualmente, a Arábia Saudita busca desenvolver um programa nuclear voltado à geração de energia, mas ainda não possui usinas nucleares em operação, segundo a Associação Nuclear Mundial.



