O que seria mais um capítulo simbólico da histórica campanha da República Democrática do Congo na Copa do Mundo de 2026 acabou ganhando contornos políticos e burocráticos fora de campo.
O torcedor Michel Kuka Mboladinga, conhecido internacionalmente por sua homenagem ao líder congolês Patrice Lumumba, teve o visto negado pelos Estados Unidos e não pôde acompanhar a seleção no jogo decisivo contra o Uzbequistão. A informação foi divulgada pelo jornal francês L’Équipe.
Mboladinga ganhou notoriedade por um comportamento incomum nas arquibancadas: durante os jogos, ele permanece completamente imóvel, de terno e com um braço levantado, reproduzindo a estátua de Lumumba, um dos principais nomes da independência do Congo.
A performance chamou atenção durante a Copa Africana de Nações de 2025, quando recebeu o apelido de “Lumumba Vea” e passou a ser visto como um símbolo da torcida congolesa.
Na Copa do Mundo, ele chegou a acompanhar parte da campanha (inclusive no México), mas já havia enfrentado dificuldades logísticas anteriormente, como restrições de viagem ligadas a um surto de ebola em seu país.
A negativa do visto acontece justamente no momento mais importante da seleção na história recente.
No último sábado (27), a RD Congo venceu o Uzbequistão por 3 a 1 e garantiu uma classificação inédita à fase de mata-mata da Copa do Mundo.
- A equipe africana voltou ao Mundial após 52 anos de ausência
- Avançou como um dos melhores terceiros colocados
- Agora enfrentará a Inglaterra na próxima fase
A ausência do torcedor, que virou uma espécie de embaixador cultural da equipe, contrasta com o momento de maior visibilidade da seleção.
Entre cultura, política e imigração
A figura de Mboladinga vai além do futebol. Sua homenagem a Patrice Lumumba carrega um peso histórico relevante.
Lumumba foi o primeiro primeiro-ministro da República Democrática do Congo após a independência da Bélgica, em 1960, e acabou assassinado no ano seguinte em meio a disputas políticas durante a Guerra Fria, episódio que envolveu interesses internacionais e, segundo investigações posteriores, participação estrangeira.
Nesse contexto, a ausência do torcedor levanta discussões que ultrapassam o esporte, envolvendo restrições migratórias, política internacional e representatividade cultural.
Enquanto Mboladinga fica fora, outro torcedor congolês chegou a assumir simbolicamente o papel nas arquibancadas, levantando a dúvida que circula nas redes: a presença também será barrada?
Veja:
Os EUA barraram a entrada no estádio do famoso torcedor da RD Congo conhecido por homenagear Patrice Lumumba, líder histórico assassinado pela CIA.
Em seu lugar, outro compatriota assumiu o papel. Vão barrar esse também? pic.twitter.com/It1TG3uIco
— Pragmatismo Politico (@Pragmatismo_) June 29, 2026
Dentro de campo, a seleção segue viva no torneio. Fora dele, a história do “torcedor-estátua” reforça como a Copa do Mundo, mais uma vez, extrapola o futebol.
Conheça o torcedor do Congo que homenageia um dos maiores heróis da África


