Um estudo com mais de 568 mil participantes apontou que o home office está associado a níveis mais altos de solidão e sofrimento psicológico, além de um aumento na busca por serviços de saúde mental. A pesquisa, publicada na revista científica Science, analisou dados entre 2011 e 2024.
De acordo com os autores, o trabalho remoto responde por cerca de um terço do aumento no sofrimento psicológico observado no período. O levantamento foi conduzido por pesquisadores de instituições como Harvard, Universidade da Virgínia e o Federal Reserve de Nova York.
Um dos principais fatores identificados é o aumento do isolamento no cotidiano. Antes da pandemia, as pessoas passavam, em média, 5,4 horas acordadas sozinhas por dia. Com a expansão do trabalho remoto, esse tempo cresceu em mais de uma hora entre quem atua em casa.
O impacto é ainda mais evidente entre quem mora sozinho:
- A chance de passar o dia inteiro sem contato social aumentou em 7 pontos percentuais
- Entre 2022 e 2024, 45,9% dos dias de trabalho foram vividos completamente sem interação
- Em 31,1% dos casos, não houve qualquer contato social ao longo do dia
Os pesquisadores destacam que o ambiente de trabalho presencial funciona como uma das principais fontes de interação cotidiana, algo que não foi compensado fora do expediente.
O estudo também identificou uma piora consistente em indicadores de saúde mental. Entre os trabalhadores remotos:
- Houve 4,6% mais probabilidade de buscar atendimento psicológico
- Cresceu o uso de serviços especializados e prescrições de antidepressivos
- O sofrimento psicológico foi até duas vezes maior entre quem mora sozinho
Os autores ressaltam que esse aumento não está ligado a uma maior facilidade para agendar consultas, já que exames físicos e atendimentos de rotina não cresceram no mesmo período.
Um dos pontos de alerta é que os impactos do home office nem sempre são percebidos de forma imediata. Segundo os pesquisadores, o isolamento prolongado pode levar anos para se manifestar como sofrimento psicológico mais intenso.
Além disso, muitos profissionais relatam satisfação com o modelo remoto. Dados de 2024 indicam que 24% consideram ideal trabalhar exclusivamente de casa, e parte deles aceitaria até redução salarial para manter essa condição.
Apesar da popularidade do home office, o estudo sugere que a percepção positiva pode não refletir totalmente os efeitos a longo prazo. A ausência de convivência diária, segundo os pesquisadores, tende a reduzir oportunidades de conexão social, especialmente em um contexto em que o trabalho é uma das principais formas de interação na vida adulta.
Os autores destacam que ainda é cedo para medir todos os impactos da mudança, já que os dados não capturam adaptações mais recentes, como o fortalecimento de redes sociais fora do ambiente profissional.


