Há 35 anos, uma missão espacial rotineira acabou se transformando em um dos episódios mais simbólicos do fim da União Soviética. O cosmonauta Sergei Krikalev partiu para o espaço em maio de 1991 e retornou meses depois a um país que já não existia.
Conhecido posteriormente como o “cosmonauta esquecido”, Krikalev passou 311 dias em órbita, muito além do planejado inicialmente, em meio ao colapso político e econômico da URSS.
Krikalev foi lançado a bordo da nave Soyuz TM-12 com destino à estação espacial Mir. A missão seguia um cronograma padrão até que mudanças operacionais levaram à decisão de estender sua permanência no espaço.
A expectativa era de substituição da tripulação em poucos meses. No entanto, ajustes logísticos reduziram o número de voos programados, obrigando o cosmonauta a permanecer em órbita até a chegada de uma nova equipe.
Enquanto isso, na Terra, a União Soviética atravessava sua fase final.
Durante a estadia de Krikalev na estação Mir, o cenário político mudou radicalmente. Entre 1991 e 1992, a União Soviética entrou em colapso, dando origem a novos países e a uma reorganização completa do sistema político e econômico.
Esse processo afetou diretamente o programa espacial. O financiamento ficou incerto, e a coordenação das missões passou a enfrentar entraves burocráticos em meio à transição de poder.
Na prática, o cosmonauta permaneceu no espaço enquanto o país que o havia enviado deixava de existir.
A missão só foi encerrada em março de 1992. Para viabilizar o retorno, a Alemanha financiou parte da operação ao enviar o astronauta Klaus-Dietrich Flade à estação Mir.
Ao voltar à Terra, Krikalev já não era mais cidadão da União Soviética, mas da recém-formada Rússia.
O episódio consolidou sua imagem como o “último cidadão soviético”, alguém que deixou um país e voltou para outro.
Apesar da narrativa popular de abandono, Krikalev sempre atribuiu o sucesso da missão às equipes de solo e aos colegas de programa espacial.
Sua trajetória não terminou ali. O cosmonauta participou posteriormente de missões importantes, incluindo etapas iniciais da construção da Estação Espacial Internacional (ISS).
Ao longo da carreira, acumulou mais de um ano e meio no espaço e recebeu condecorações tanto da antiga União Soviética quanto da Rússia.
Mais do que um episódio curioso, sua história acabou se tornando um retrato raro de como geopolítica e exploração espacial podem se cruzar, até mesmo em órbita.


