Um grupo de cientistas da Universidade de Hong Kong desenvolveu o primeiro spray nasal de nanopartículas capaz de transportar medicamentos diretamente ao cérebro sem necessidade de cirurgia ou injeções.
A tecnologia foi criada para atuar principalmente em casos de AVC isquêmico, oferecendo tratamento emergencial ainda no período pré-hospitalar e aumentando as chances de preservação das funções cerebrais.
O projeto foi conduzido pelo Departamento de Farmacologia e Farmácia da Faculdade de Medicina LKS da HKUMed, em parceria com o Centro de Instrumentação Biomédica Avançada InnoHK (ABIC).
Segundo os pesquisadores, a inovação pode reduzir danos neurológicos ao permitir uma intervenção rápida logo após os primeiros sintomas do acidente vascular cerebral.
Os cientistas afirmam que o spray nasal tem potencial para funcionar como ferramenta de primeiros socorros em situações de emergência.
A expectativa é que o método contribua para elevar as taxas de sobrevivência e melhorar a recuperação neurológica dos pacientes.
Atualmente, o tratamento do AVC isquêmico depende principalmente de terapias de reperfusão, como trombolíticos intravenosos e trombectomia mecânica.
Entretanto, especialistas apontam que a eficácia desses procedimentos está ligada a uma janela terapêutica curta, além de limitações relacionadas ao acesso aos serviços médicos e aos critérios de elegibilidade dos pacientes.
Como funciona o spray nasal para casos de AVC?
A equipe de pesquisa trabalhou por mais de dez anos no desenvolvimento da plataforma chamada “Nano-em-Micrôn”, utilizada posteriormente na criação do spray “NanoPowder”.
O método encapsula agentes neuroprotetores em nanopartículas e transforma essas substâncias em um pó inalável de tamanho micrométrico.
Após a inalação, o material se deposita na cavidade nasal e, ao entrar em contato com o muco, se desagrega rapidamente em nanopartículas.
Essas partículas percorrem o trajeto entre o nariz e o cérebro, ultrapassando a barreira hematoencefálica, estrutura que normalmente impede a passagem de muitos medicamentos para o sistema nervoso central.
“O spray nasal caracteriza-se por sua resposta rápida, portabilidade e facilidade de uso.
Ele permite que os pacientes recebam proteção precoce a caminho do hospital ou mesmo em casa, retardando significativamente a morte de células cerebrais em condições isquêmicas e preservando efetivamente os tecidos cerebrais ainda viáveis, ganhando assim um tempo valioso para tratamentos subsequentes”, afirmou Aviva Chow Shing-fung, professora associada do Departamento de Farmacologia e Farmácia da HKUMed e co-investigadora principal do ABIC.

Resultados em testes e próximos passos
Em estudos pré-clínicos realizados com animais, os pesquisadores observaram que a aplicação do spray nos primeiros 30 minutos após o início do AVC conseguiu reduzir o infarto isquêmico em mais de 80%.
Os testes também apontaram preservação das funções neurológicas e motoras.
Além disso, o tratamento demonstrou capacidade de reduzir inflamações cerebrais, preservar a barreira hematoencefálica e prevenir apoptose celular, mecanismo ligado à morte programada das células.
Shao Zitong, pesquisador de pós-doutorado do ABIC, destacou que a proposta não substitui os tratamentos hospitalares já existentes, mas funciona como suporte emergencial antes da chegada ao hospital.
“Após um AVC, cada segundo importa. Mesmo dez minutos adicionais de proteção cerebral podem determinar se um paciente poderá andar ou falar no futuro.
O principal avanço desta tecnologia reside na transferência do tratamento do AVC do ambiente ‘hospitalar’ para o estágio ‘pré-hospitalar’, possibilitando a neuroproteção em vez da mera dissolução do coágulo ou trombectomia”, explicou Zitong.
Os pesquisadores agora pretendem avançar para estudos toxicológicos e ensaios clínicos.
A expectativa é que, futuramente, o spray possa ser disponibilizado em farmácias e comunidades como produto de primeiros socorros para AVC.
A tecnologia também poderá ser aplicada no tratamento de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, além de infecções cerebrais, incluindo meningite.


