O uso de inteligência artificial generativa tem transformado a forma como pessoas interagem com a tecnologia, e um comportamento curioso vem ganhando espaço em 2026: tratar sistemas automatizados com gentileza e educação, como se fossem humanos.
Expressões como “por favor” e “obrigado” passaram a aparecer com frequência nos comandos enviados a modelos de linguagem. No entanto, surge uma dúvida recorrente:
Ser educado com a IA realmente melhora os resultados ou isso é apenas um reflexo da tentativa humana de humanizar máquinas?
De acordo com especialistas, a resposta está longe de ser emocional, e muito mais ligada à qualidade da informação fornecida.
Clareza vale mais do que gentileza
Embora a gentileza não prejudique o uso da tecnologia, ela também não é o fator determinante para obter respostas melhores. O que realmente faz diferença é a forma como o pedido é estruturado.
Segundo o professor Isac Costa, diretor do Instituto Brasileiro de Tecnologia e Inovação (IBIT), o impacto positivo associado à educação pode estar ligado a outro fator.
“Pedidos educados tendem a ser mais bem formulados, com contexto e objetivo explícitos, e isso sim melhora a resposta”, explica.
Ou seja, quando o usuário tenta ser educado, geralmente acaba oferecendo mais contexto e clareza, elementos fundamentais para que a IA interprete corretamente a solicitação.
A advogada Bianca Mollicone, especialista em regulação de novas tecnologias, reforça esse entendimento ao destacar que a literatura de prompt engineering prioriza comandos claros e específicos.
“A educação pode ajudar indiretamente, mas o que costuma fazer diferença no final das contas é a estrutura informacional do comando”, afirma ela em entrevista à CNN Brasil.
O tom da mensagem pode influenciar, mas não como você imagina
Apesar de a inteligência artificial não possuir emoções, o tom do comando pode impactar o desempenho do sistema por razões técnicas.
Estudos recentes indicam que a forma como o pedido é escrito pode alterar os resultados, ainda que de maneira não linear.
“Rudeza tenderia a piorar resultados em vários contextos, enquanto polidez excessiva não garante melhoria”, observa Bianca Mollicone.
Isso acontece porque comandos agressivos ou confusos costumam ser mais curtos, ambíguos ou incoerentes, o que dificulta o processamento da informação.
Por outro lado, excesso de formalidade pode diluir a instrução principal.
“Quando o usuário escreve de forma confusa ou vaga, ele reduz a qualidade desse sinal informacional que orienta o output da IA”, explica a especialista.
Os riscos de humanizar a inteligência artificial
Outro ponto de atenção destacado por especialistas é a tendência de atribuir características humanas à tecnologia. Embora natural, esse comportamento pode trazer consequências.
A IA funciona com base em padrões estatísticos e processamento de dados, sem qualquer tipo de empatia ou consciência.
“Representações antropomórficas podem induzir confiança excessiva e distorcer a compreensão do que esses sistemas realmente são”, alerta Bianca.
Esse cenário pode levar ao fenômeno conhecido como “rendição cognitiva”, quando o usuário aceita respostas da IA sem questionamento crítico, apenas pela forma fluida ou convincente como são apresentadas.
Como criar um prompt eficiente?
Para obter melhores resultados ao usar inteligência artificial, especialistas recomendam focar em quatro pilares principais:
- Contexto ou papel: indicar claramente o cenário ou função esperada.
- Tarefa objetiva: definir exatamente o que deve ser feito.
- Dados de apoio: fornecer informações relevantes.
- Formato da resposta: especificar como o retorno deve ser apresentado.
Nesse contexto, a educação aparece apenas como um elemento secundário.
“O usuário que extrai melhores respostas não é o mais polido: é o que sabe formular problema, delimitar tarefa e revisar criticamente a saída”, define Bianca Mollicone.
Embora ser educado com a inteligência artificial seja um hábito positivo, não é a gentileza que determina a qualidade das respostas, mas sim a clareza, o contexto e a precisão do comando.
Na prática, a IA continua sendo uma ferramenta, e, como qualquer ferramenta, funciona melhor quando utilizada com instruções bem definidas e pensamento crítico por parte do usuário.


