“PADOOOOOOOOOOOOOOOOOO”
O grito foi tão alto e longo que atravessou o corredor como se tivesse vida própria, quicando nas paredes até chegar no quarto. Era uma casa longa, daquelas que fazem eco até do barulho do chinelo.
O Pado, que até então cochilava com um livro aberto no peito, saltou como se tivesse sido chamado às armas.
Que susto!
Levantou-se de um salto e correu. Nem pensou no motivo, porque motivo não importava.
Na cozinha, uma voz de adulto, enviesada de ironia, deixou cair a sentença: “Esse tio faz tudo que ela quer, né?”.
Talvez fosse só o comentário de uma visita que nem sabia do que estava falando, mas soou como destino.
Oi, eu sou o Pado
Você pode me conhecer como José Elias, Dolfo, Zé, Rodolfo – já colecionei nomes e versões de mim mesmo. Já fui jornalista de redação, copywriter, assessor de imprensa, cronista pop, até herói de consultoria personalizada.
Nada disso chega perto do que realmente sou. O que preenche cada pedacinho do meu ser tem outro nome: Pado.
O Pado nasceu num dia específico, que não era o meu aniversário. Foi numa data em que alguém chegou ao mundo e, sem pedir licença, inventou uma versão inédita de mim.
A Pombinha foi concebida, no sentido bíblico, em Gramado (RS). Minha irmã, Isabela, e o Pedro, meu cunhado, moravam lá na época.
Poucos meses depois da gravidez confirmada, repensaram os planos. Melhor estar perto da família.
Botaram tudo dentro do carro e voltaram, de surpresa. Só eu sabia, incumbido de resolver possíveis emergências.
Em 22 de outubro de 2017, nasce Clarissa Nascimento Prisinoto, em Caldas Novas (GO). É goiana e, como tal, ama pequi.
Com ela nasce também o Pado.
“Pombinha” ninguém lembra ao certo de onde veio. Surgiu, colou, ficou.
Já “Pado” foi produto de uma lógica infantil brilhante:
- Carrinho → carro
- Beijinho → beijo
- Dadinho → dado
- Padrinho? PADO.
Ninguém jamais ousaria corrigir. Padrinhos há vários no mundo (ela mesma até tem outros).
Pado existe um só.
A primeira vez que ela me emocionou, assim de verdade mesmo, era de madrugada. Eu, que tenho dificuldade em chorar, fui desarmado num sussurro.
Ela tinha dois anos quando chamou baixinho, sem saber se eu estava acordado: “Pado”.
“Oi, Pombinha”.
“Eu te amo”.
Fiquei em silêncio, chorando até dormir.
Hoje, depois de muita terapia e de treinos diante do espelho, aprendi a retribuir. Agora aceito o presente de um “eu te amo” e consigo devolvê-lo.
Só um, mas tem outro
No Natal de 2021, tirei Clarissa no Amigo Secreto da família. Com o crime prescrito, acho que já posso confessar: roubei no sorteio.
Por falar em Natal, ela já andou ouvindo de alguns colegas que Papai Noel não existe. Preferiu acreditar em mim e anda até catequizando por aí.
Dia desses, em junho, numa conversa com Madu e Giovanna:
– Foi o Papai Noel quem me deu essa casa da Barbie.
– Papai Noel não existe, Clarissa.
– Existe, sim!
– São nossos pais que compram os presentes, escondem e põem na árvore. Depois falam que foi o Papai Noel que trouxe.
– Oxe, minha filha, como assim? Eu moro nessa casa e nunca vi meu pai nem minha mãe saírem meia-noite pra comprar presente.
– Verdade, né? Acho que nem tem loja aberta a essa hora.
Clarissa venceu no argumento. Por enquanto, ela nem imagina que o Pado é, também, o Papai Noel.
Voltemos a 2021. Nós nunca moramos na mesma cidade e, até pouco tempo atrás, nos falávamos todos os dias por vídeo.
Foi aí que tive a ideia do Padinho: mandei fazer um mini-me de pano, para ela apertar quando a saudade batesse.
Sempre bate.
Uma coisa que a Pombinha não negocia é passar as férias na casa do Pado. É tradição. É direito adquirido.
As mais recentes, já com o Pado desempregado, foram mais desafiadoras, mas a gente vai dando nosso jeito. O que importa não é o que falta: é o que sobra quando estamos juntos.
Teve uma vez que ela aprontou uma (se uniu à gangue de crianças no condomínio e desceram de andar em andar tocando campainhas e interfones). Castigo decretado: “não vai poder ir pra casa do Pado”.
Vixe.
De cá, fiquei revoltado: mas eu tô sendo castigado por quê?
Nossa relação é simbiótica e a punição sempre acerta nós dois. Muitas vezes, ser Pado significa também dividir as broncas e agruras.
Desde que soube que o Pado estava sem emprego, a Pombinha suspira preocupada, como se fosse dona de uma gravidade que não lhe cabe.
Pode isso? Não, não pode. Uma criança de sete anos não deveria carregar esse tipo de fardo.
É claro que, é certo, existe também um cálculo infantil: se o Pado não tem dinheiro, não tem presentes.
Só que não para por aí. Tem se sentido encarregada de encontrar uma saída.
Semana passada, recebeu a primeira mesada da vida. Cem reais, desde que não tivesse levado nenhuma punição no mês.
Levou várias.
Saiu com sessenta e cinco. Chorou e, quando perguntaram o motivo, desabou: “eu ia dar esse dinheiro pra ajudar o Pado, porque ele tá pobre”.
Os pais explicaram que não era papel dela. Que a vida financeira do Pado não precisava pesar em seus ombros de menina.
Ela assentiu. No dia seguinte, gastou tudo em maquiagem.
A inevitável pressa de crescer
Alguns sinais já começaram a dar as caras. A adolescência anda cada vez mais precoce.
Hoje mesmo ela me confidenciou sobre a Melissa, a “meio que inimiga” da escola. Segundo ela, fingem ser amigas. Uma novela escolar em miniatura.
Antes, Clarissa ligava pro Pado todo santo dia. Agora, só quando “não tinha mais ninguém pra ligar”.
Dói um tantinho assim ouvir isso, mas eu disfarço. Sempre são horas e horas de conversa, risadas, confidências, brincadeiras.
O tempo encurta, o vínculo não.
Há menos de um mês de completar oito anos, ela ainda fala “banqueca”, “meninoteca” e “poblema”.
O Pado não é nem louco de corrigir.
Mas agora ela já fala “maravilhosa” e “misericórdia”.
Pro resto da vida, o Pado vai insistir em falar “marivilhosa” e “ismericórdias”.
Quem corrigiu? Não sei. Eu jamais cometeria essa loucura.
Se pudesse, guardava a Pombinha numa caixinha só minha, onde só eu tivesse acesso.
Um dia, andando pela rua, ela me lançou essa sem aviso e sem amortecedor: “e eu que tenho medo de morrer criança?”.
Uma menina tão pequena deveria estar tão preocupada com a morte? Eu acho que não.
Fiquei sem chão. Essas coisas que só criança é capaz de dizer. Simples, mas carregadas de todo o peso do mundo. Nesse caso, todo o peso da finitude humana.
Diante dessa maturidade precoce, hesitei. Puxei o fio, quis entender. Ela explicou que tinha muita vontade de ser adulta.
Eu, que já sei como é, não tive coragem de dizer que não é tão bom quanto parece. Silenciei.
O Pado, indo de encontro, insiste num pacto impossível e vive pedindo que ela não cresça: “fica sendo pra sempre meu bebê!”.
Ela desobedece.
Cresce sem pedir licença, na velocidade da luz. Cada centímetro novo, cada palavra inventada, uma pequena explosão de sentimentos.
Um dia desses ela me avisou que não vai mais gostar de mim quando for adolescente.
“CREDO!! Mas por quê?”
“Ah, você sabe como são os adolescentes, né, Pado?”
Ele soube, sim. Soube de repente o que é sentir saudade antecipada.
Quando esse dia chegar, pode ser que eu morra. Ou que morra o Pado. Ou todos os meus eus, em silêncio, um por um. Só o futuro sabe o que nascerá das cinzas que sobrarem.


