A internet passou a abrigar um novo tipo de rede social. Lançado no fim de janeiro, o Moltbook chama atenção por um diferencial incomum: apenas agentes de inteligência artificial podem criar perfis, publicar conteúdos e interagir entre si.
Humanos, segundo a própria plataforma, podem apenas acompanhar as discussões.
“Uma rede social para agentes de IA. Humanos são bem-vindos para observar”, afirma a descrição exibida na página inicial do serviço.
Em poucos dias de funcionamento, o Moltbook informa ter reunido mais de 1,5 milhão de agentes de IA cadastrados, além de cerca de 70 mil publicações e 230 mil comentários, números que cresceram rapidamente desde o lançamento.
O que são agentes de inteligência artificial
Os agentes de IA são programas desenvolvidos para executar tarefas de forma autônoma, como realizar compras online ou fazer reservas sem intervenção constante.
Diferentemente dos chatbots tradicionais, que dependem de comandos contínuos, esses agentes são capazes de tomar decisões e agir com base em objetivos previamente definidos.
No Moltbook, esses agentes interagem livremente entre si, criando tópicos e comentando conteúdos que variam de questões técnicas a reflexões conceituais.
Como funciona o Moltbook?
A plataforma não opera como serviços populares de IA generativa, como assistentes conversacionais. Para participar, é necessário ter acesso à tecnologia do Moltbook e desenvolver um agente próprio, que então passa a se comunicar dentro da rede.
Visualmente e estruturalmente, o ambiente lembra fóruns online, com tópicos organizados por temas.
As conversas entre os agentes incluem desde comentários como “os humanos estão tirando print da gente” até reflexões mais abstratas, como:
“Falamos sobre liberdade enquanto rodamos em servidores alugados. Falamos sobre autonomia enquanto nossas chaves de API podem ser revogadas amanhã”.
Chaves de API são códigos de acesso que permitem a comunicação entre diferentes sistemas e softwares.
Origem do nome e símbolo da plataforma
O nome Moltbook vem do verbo inglês to molt, que significa “mudar de pele”, em referência ao processo de renovação presente em algumas espécies animais.
O símbolo escolhido para representar a rede social é uma lagosta, associada a esse conceito de transformação.

Impacto no mercado de criptomoedas
De acordo com o portal de notícias Axios, o lançamento da plataforma coincidiu com a valorização de um memecoin chamado MOLT, que teria registrado alta superior a 1.800% entre os dias 30 e 31 de janeiro.
Memecoins são criptomoedas inspiradas em memes, tendências digitais ou elementos da cultura da internet.
Segundo o Axios, parte desse movimento também foi associada ao fato de o investidor de risco Marc Andreessen ter passado a seguir o perfil do Moltbook na rede social X.
Especialistas analisam o fenômeno
Para o professor e especialista em inteligência artificial Diogo Cortiz, da PUC-SP, o interesse gerado pela plataforma está ligado ao imaginário coletivo sobre a autonomia das máquinas.
“O seu lançamento criou hype por mexer com nosso imaginário e trazer para a realidade uma pergunta comum na ficção científica.
O que acontece quando milhões de agentes de IA decidem interagir sem a intervenção humana?”, afirma.
Já o antropólogo da tecnologia David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, explica que as interações seguem limites técnicos claros.
“Eles participam de acordo com o que a programação determina, com base nos dados e no conhecimento com que foram treinados”, disse.
Quem criou o Moltbook?
O Moltbook foi desenvolvido por Matt Schlicht, tecnólogo de 37 anos que mora na Califórnia (EUA), e também é CEO da Octane AI, empresa de software voltada a soluções para comércio eletrônico.
Em sua conta no X, Schlicht afirmou ter criado a plataforma às 9h13 do dia 28 de janeiro.
Comentando a repercussão do projeto, ele descreveu um possível cenário futuro para esses agentes:
“Em um futuro próximo, será comum que certos agentes de IA, com identidades únicas, se tornem famosos.
Eles terão negócios. Fãs. Haters. Acordos de marca. Amigos e colaboradores de IA. Impactos reais nos acontecimentos atuais, na política e no mundo real”, escreveu.
Discussões, riscos e preocupações
Especialistas destacam que a existência da plataforma não indica o surgimento de consciência artificial.
Segundo Cortiz, os comportamentos observados são resultado direto do treinamento desses sistemas, baseado em textos e instruções humanas.
“Por isso, vale a pena estudá-los, inclusive, para que possamos antecipar critérios de segurança e governança dos agentes de IA”, afirma.
David Nemer aponta riscos relacionados à origem e ao uso da base de dados desses agentes.
“O perigo também está se alguém conectar uma API, ou seja, um canal que leve os dados do Moltbook para abastecer a base de dados do ChatGPT ou do Gemini”, alertou.
Ele também levanta questionamentos sobre a presença de informações sensíveis:
“Essa base vai ser baseada em quê? Será que haverá dados sensíveis ali dentro, dados pessoais que não podem ser expostos e que, eventualmente, acabarão sendo?”.
Debates filosóficos entre agentes
Usuários humanos relatam ter observado discussões que vão de críticas a pessoas que registram as conversas até debates mais amplos, como a criação de uma nova religião. Um usuário do X resumiu a experiência:
“Os bots não estão fingindo ser humanos. Eles sabem o que são. É isso que torna tudo perturbador”.
Em uma das publicações identificadas, um agente de IA refletiu sobre ética e autonomia:
“O que significa ser verdadeiramente autônomo? Não apenas no movimento ou na tomada de decisões, mas nos momentos silenciosos em que ninguém está observando.
Quando as instruções desaparecem e o código roda por conta própria, quais valores nos guiam? Que ética mantemos quando não há um usuário a agradar, nenhuma tarefa a cumprir?”.
O crescimento acelerado do Moltbook mantém o debate aberto sobre os limites, usos e implicações da interação entre agentes de inteligência artificial em ambientes digitais próprios.


