O escritor, produtor e diretor de televisão Manoel Carlos morreu no último sábado (10), aos 92 anos.
A informação foi confirmada pela produtora Boa Palavra, administrada por Júlia Almeida, atriz e filha do autor. A causa da morte não foi divulgada. O velório foi fechado, restrito a familiares e amigos próximos neste domingo (12), no Rio de Janeiro.
Reconhecido como um dos principais nomes da teledramaturgia nacional, Manoel Carlos construiu uma obra marcada por diálogos extensos, observação sensível do cotidiano e personagens femininas centrais que se tornaram referência na televisão brasileira.
Um autor que transformou o cotidiano em narrativa
Conhecido nos bastidores como Maneco, o autor viveu seus últimos anos com limitações provocadas pelo Parkinson. A condição foi incorporada à sua obra final, a novela “Em Família” (2014), exibida pela TV Globo, por meio do personagem interpretado por Paulo José, que também convivia com a doença.
Na época, a produção encerrou sua exibição com a menor audiência do horário até então. Questionado sobre possíveis erros, Manoel Carlos respondeu:
“Se cometi erros sendo dessa maneira, então errei sempre”. E completou: “Escrevo muito, gosto disso. Pode ser que os tempos sejam outros e que não haja mais tanto espaço para se conversar nas novelas”, em um contexto em que as pessoas “telegrafam seus sentimentos”.
O estilo Manoel Carlos de escrever novelas
Os longos diálogos, escritos com atenção minuciosa à fala cotidiana, tornaram-se uma das principais marcas do autor. As histórias quase sempre se passavam no mesmo cenário urbano, embaladas por trilhas de Bossa Nova, elemento recorrente em suas produções.
Atento à crônica da classe média urbana, Manoel Carlos integrou um grupo restrito de novelistas que atuaram em um período em que a televisão aberta era a principal forma de entretenimento doméstico no país. Sua identidade autoral se consolidou de forma única junto ao público.
As Helenas e o protagonismo feminino
Uma das características mais conhecidas da obra de Manoel Carlos foi a repetição do nome Helena para suas protagonistas. Entre “Baila Comigo” (1981) e “Em Família”, foram nove Helenas, interpretadas por diferentes atrizes ao longo de mais de três décadas.
Entre os destaques estão Lilian Lemmertz, Regina Duarte, Maitê Proença, Vera Fischer, Christiane Torloni e Taís Araújo.
Regina Duarte foi a atriz que mais vezes viveu a personagem, em “História de Amor”, “Por Amor” e “Páginas da Vida”.
O próprio autor atribuía a escolha do nome a um fascínio pela figura mítica de Helena de Troia, associando suas personagens à força e autonomia feminina.
Essas protagonistas frequentemente contrariavam estereótipos tradicionais, mesmo quando cometiam erros ao longo da narrativa.
Relembre algumas Helenas de Manoel Carlos:

Antagonistas fortes e conflitos femininos
Além das protagonistas, Manoel Carlos também se destacou pela criação de vilãs e antagonistas complexas, personagens que se tornaram tão marcantes quanto as heroínas.
Atrizes como Lilia Cabral, Vivianne Pasmanter, Susana Vieira e Marieta Severo deram vida a esses papéis, frequentemente lembrados pelo público.
Em documentário recente da série Tributo, do Globoplay, o autor explicou sua preferência por histórias centradas no universo feminino: “A mulher move o mundo”.
E completou: “As mulheres são confessionais e os homens não são. É mais fácil, pra mim, escrever sobre mulheres porque as mulheres falam as coisas, o homem não confessa que é traído”.
Convivência, afetos e o “Leblon de Maneco”
Outra característica recorrente em suas obras foi a convivência cordial entre ex-casais e novas famílias, reflexo de uma visão conciliadora das relações afetivas. A expressão “parece novela do Manoel Carlos” tornou-se popular para definir situações de harmonia pouco comuns na vida real.
O Leblon, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, ganhou uma versão idealizada em suas novelas. A frase “viver no Leblon do Manoel Carlos” passou a simbolizar um estilo de vida solar e harmonioso, embora o autor também tenha retratado temas duros, como a violência urbana, em tramas como “Mulheres Apaixonadas” e “Laços de Família”.
Trajetória antes das novelas
Antes de se consolidar como novelista, Manoel Carlos iniciou sua carreira na TV Tupi, ainda como ator amador. Posteriormente, destacou-se como roteirista e adaptador de clássicos para o teleteatro.
Na TV Record, integrou a chamada Equipe A, responsável por produções históricas como “Família Trapo” e programas musicais que marcaram época. Também colaborou como roteirista em programas de auditório, incluindo os de Hebe Camargo.
Na década de 1970, a convite de Boni, mudou-se para a TV Globo e passou a viver no Leblon, cenário que inspiraria grande parte de suas histórias. Atuou como diretor do Fantástico antes de se dedicar integralmente às novelas.
Produções marcantes e carreira internacional
Ao longo da carreira, Manoel Carlos escreveu 16 novelas, além de séries e minisséries como “Malu Mulher”, “Presença de Anita” e “Maysa”.
Entre 1983 e 1990, trabalhou fora da Globo, com passagens por emissoras como Manchete, Bandeirantes e a rede Telemundo, nos Estados Unidos.
Retornou à Globo em 1991 com “Felicidade”, permanecendo na emissora até sua aposentadoria.
Vida pessoal e perdas familiares
A vida pessoal de Manoel Carlos foi marcada por perdas profundas. O autor perdeu três filhos ao longo dos anos.
Sobre o tema, ele disse: “As pessoas costumam dizer: ‘até parece que isso é assim: isso só acontece em novela’, mas a vida real é menos verossímil que novela e ninguém discute”.
Em depoimento ao Tributo, afirmou: “Acho engraçado quando falam de superação”. E completou: “Eu tenho três filhos que perdi e estão presentes permanentemente em tudo que faço. O que é superar? Acho até ingrato. Superar é esquecer? […] Não se trata de superar, mas de continuar vivendo”.
Casado três vezes, Manoel Carlos foi pai da atriz Júlia Almeida e de Maria Carolina, que colaborou com ele como roteirista. Júlia esteve à frente dos cuidados com o pai nos últimos anos.
A morte de Manoel Carlos encerra um capítulo fundamental da televisão brasileira, deixando uma obra que segue presente na memória do público e na história da dramaturgia nacional.
Confira a nota oficial anunciando a morte de Manoel Carlos:


