Um jovem de 19 anos perdeu a vida após invadir a jaula de uma leoa neste domingo (30) em João Pessoa, na Paraíba.
Gerson de Melo Machado, conhecido como “Vaqueirinho”, escalou as grades de segurança e uma parede de mais de seis metros antes de entrar na área restrita localizada no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, conhecido como Parque da Bica.
Segundo a Prefeitura de João Pessoa, o jovem teria acessado o recinto “deliberadamente”. A leoa o atacou imediatamente, e o jovem não resistiu aos ferimentos e morreu.
O parque foi interditado para remoção do corpo e investigação do caso pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam).
Desde a infância, o jovem repetia com insistência que tinha o sonho de “ir à África para domar os leões” e dizia que faria o percurso “a pé”, se fosse preciso.
A delegada Josenice de Andrade Francisco informou ao portal Metrópoles que o jovem acumulava 16 registros policiais, a maioria por danos e pequenos furtos, e apresentava sinais claros de transtornos mentais.
Na semana anterior ao episódio, após ser levado novamente à Central de Flagrantes, houve uma solicitação de internação psiquiátrica, que, segundo ela, não foi analisada.
A conselheira tutelar Verônica Oliveira relatou que Gerson frequentemente procurava a delegacia espontaneamente para se entregar.

Leoa foi contida sem uso de tranquilizantes
De acordo com um médico veterinário do parque, a leoa — chamada Leona — foi conduzida de volta ao espaço de segurança sem necessidade de dardos tranquilizantes.
O profissional explicou que o animal respondeu prontamente ao comando devido ao treinamento gradual e anual realizado pela equipe técnica.
O veterinário afirmou ainda que as estruturas de proteção do recinto excedem as normas exigidas, com barreiras que chegam a mais de dois metros acima do padrão e incluem uma borda negativa de 1,5 metro.
O momento da entrada do jovem na jaula foi filmado por pessoas que visitavam o parque. AS IMAGENS SÃO FORTES:
⚠️ INVADIU JAULA DE LEOA | Vítima escalou parede de mais de 6 metros, ultrapassou grades de segurança e entrou no recinto do animal; parque foi fechado para investigações pic.twitter.com/CeHGjeZRpo
— Agenda do Poder (@agendadopoder) November 30, 2025
Após a tragédia, a prefeitura de João Pessoa destacou, em nota oficial:
“Embora as equipes de segurança tenham tentado impedir a ação, o homem agiu de forma rápida no acesso ao recinto e veio a óbito em decorrência dos ferimentos provocados pelo animal.
A prefeitura se solidariza com a família da vítima e esclarece que, apesar de toda segurança existente, que atende às normas técnicas, o homem insistiu na invasão, culminando nesse episódio lamentável.”
Confira a Nota Oficial do Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica):
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Animal passou por estresse, mas não corre risco de ser sacrificado
O Parque Arruda Câmara informou que Leona apresentou um “nível elevado de estresse” após o ataque, mas reforçou que não há qualquer intenção de realizar eutanásia. A leoa está sob acompanhamento constante de veterinários, biólogos e tratadores.
Uma das veterinárias do parque publicou nas redes sociais registros de interações com o animal e comentou:
“Leona além de super bem cuidada, condicionada, treinada, tem uma proximidade muito grande com todos os veterinários, biólogos e tratadores do zoológico.
Ela fez apenas o que uma leoa faz. Ela nunca será a vilã. Sou completamente apaixonada por ela e pela equipe técnica!”.
Agora veja a nota sobre Leona:
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Histórico da vítima expõe trajetória marcada por vulnerabilidade
A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos — conhecido como “Vaqueirinho” —, também levantou discussões sobre sua trajetória pessoal. Segundo relatos, o jovem cresceu em pobreza extrema, enfrentou transtornos mentais não tratados e viveu um histórico de abandono familiar.
A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou Gerson por oito anos, relatou estar “arrasada” com o ocorrido. Em publicação nas redes sociais, ela descreve que dos 10 aos 18 anos o jovem foi atendido pelo Conselho Tutelar de Mangabeira.
“Embora o Conselho solicitasse laudos, porque era visível o transtorno mental, o Estado dizia que ele só tinha um problema comportamental”, declarou Verônica no vídeo.
Segundo ela, Gerson tinha desde a infância o sonho de ir à África para “domar leões”.
“Foi uma criança que sofreu todo tipo de violação de direito. Filho de uma mãe com esquizofrenia, com avós também comprometidos na saúde mental, vivia numa pobreza extrema.”
Gerson entrou na rede de proteção ao ser encontrado pela Polícia Rodoviária Federal sozinho em uma BR, aos 10 anos de idade.
A conselheira lembra que, apesar de a mãe ter perdido o poder familiar, o jovem mantinha laços afetivos e buscava constantemente reencontrá-la.
“Ele, embora estivesse destituído, amava a mãe e sonhava que ela conseguisse cuidar dele. Evadia do abrigo e ia direto para a casa da avó e da mãe.”
Em outra ocasião, segundo a conselheira tutelar:
“Ela (a mãe) muitas vezes foi levá-lo ao conselho e dizia que não era mais mãe dele e queria devolvê-lo. Ela também é vítima da mente doente.”
Apesar de ter irmãos adotados por outras famílias, Gerson não conseguiu o mesmo destino.
“Justamente por ter possível transtorno. A sociedade quer adotar crianças perfeitas, coisa impossível dentro do acolhimento institucional, onde só chegam diante de negligência extrema.”
Gerson tinha o sonho de viajar para a África para “domar leões”
Desde cedo, ele mencionava o desejo de viajar para a África para interagir com felinos. “Domar leões” era uma frase repetida por Gerson em várias conversas no Conselho Tutelar.
De acordo com policiais que tiveram contato direto com o jovem, ele repetia com insistência o desejo de “ir à África para cuidar dos leões” e dizia que faria o percurso “a pé”, sendo alertado pelos agentes sobre a enorme distância, e que esse plano seria impossível.
Esse sonho, segundo Verônica, o acompanhava desde a infância e chegou a motivar tentativas extremas, como quando tentou embarcar clandestinamente em um avião. Em relato, ela lembrou:
“Você dizia a mim que ia pegar um avião para ir para um safári na África para cuidar dos leões. Você ainda tentou, mas agradeci a Deus quando fui avisada pelo aeroporto que você tinha cortado a cerca e tinha entrado no trem de pouso do avião da Gol. Dei graças a Deus, porque observaram pelas câmeras que havia um adolescente, antes que uma desgraça acontecesse.”
A Prefeitura de João Pessoa continua investigando o caso.
Confira o vídeo publicado por Verônica Oliveira, Conselheira Tutelar:
a conselheira tutelar que acompanhava o vaqueirinho (o rapaz que invadiu a jaula da leoa em joão pessoa) se pronunciou sobre o ocorrido, expondo a urgência de políticas públicas de cuidado psicológico pic.twitter.com/8Qk6OTRpvO
— webdivo nettinho (@webdivonettinho) December 1, 2025



